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Por que não nos tornamos a pessoa que queremos ser?

 Marshall Goldsmith

Por vários anos, eu realizei algo que alguns podem considerar como um ritual diário incomum.

Em um horário pré-agendado, eu recebo uma ligação telefônica de uma pessoa que eu contratei exclusivamente com o propósito de me ouvir relatar meus resultados em uma breve auto avaliação. As questões (29, no total), as quais eu mesmo escrevi, funcionam como uma simples verificação das principais prioridades da minha vida. Elas avaliam se eu fiz o meu melhor para me exercitar, traçar objetivos, ter interações positivas com outros, etc. O meu interlocutor me escuta educadamente, as vezes oferece algumas poucas palavras de encorajamento, e, por fim, desliga o telefone.

Qual é o propósito de se auto avaliar? Esse processo, o qual eu chamo de “questões diárias”, me mantem focado em me tornar uma pessoa mais feliz e saudável. Com isso, eu consigo adquirir a disciplina que eu necessito na minha vida caótica de trabalho como um Coach executivo, professor e palestrante, o que envolve viajar 180 dias do ano para países ao redor do mundo.

Nas palestras, eu ensino e encorajo estudantes a tentarem algo para eles mesmos, pedindo para que eles escrevam as suas próprias questões. A maioria deles se interessa muito em participar. Até hoje, quase 3.000 pessoas já completaram a versão online das questões diárias. Muitos outros me enviaram e-mails procurando ajuda de como formular as suas próprias questões.

Quando eu encontro uma pessoa cética, normalmente me pergunta qual seria motivo de se pagar alguém para lembrar-me de coisas tão simples – a lista inclui uma questão relacionada a minha higiene bucal. Não deveria eu, um adulto totalmente capaz e funcional, me lembrar disso sozinho

Claro que eu deveria, assim como todos nós. Mas como eu discuto no meu último livro “Triggers: Tornando-se a Pessoa que Você Quer Ser” (com Mark Reiter, Crown – maio de 2015), comportamentos simples e diários estão entre as coisas mais difíceis das nossas vidas de se controlar ou mudar. Juntos, eles podem causar a diferença entre uma vida bem vivida e uma vida que tenha saído, irremediavelmente, fora dos trilhos.

Contudo, talvez porque a nossa cultura supervaloriza a força de vontade e a independência, muitos de nós acreditam que não podemos necessitar de ajuda com coisas tão fundamentais. Ao invés disso, nós tendemos a acreditar que ajuda se resume exclusivamente à problemas difíceis e complexos. A partir dessa perspectiva, as questões diárias aparentam ser inúteis. Qual o motivo de se realizar um teste do qual eu criei as perguntas e, consequentemente, já sei as respostas? Não apenas isso, eu raramente me pergunto se eu dei o meu melhor para alcançar os meus resultados – que é um padrão muito brando. A única escala de sucesso é “Eu, ao menos, tentei?”

Parece ser muito fácil. Mas após anos de dedicação nesse processo, eu acredito que as questões diárias são, de fato, um teste muito difícil, um dos mais complicados que iremos realizar.

Para compreender o porquê, você precisa primeiro captar uma verdade básica sobre o comportamento humano. Mudar é algo difícil. Muito difícil.

Quando eu pergunto às pessoas nas minhas palestras sobre a mudança mais difícil que eles já tiveram, elas invariavelmente listam as suas maiores conquistas: graduar-se em medicina, correr uma maratona, a criação de um suflê perfeito, etc.

Essas conquistas são realmente impressionantes. Eu provavelmente não conseguiria fazer qualquer uma dessas coisas! Todavia, uma mudança comportamental é algo ainda mais difícil. Conquistar um objetivo é como escalar uma montanha, erguer-se por um momento glorioso, e então voltar para o mundo, seguro no conhecimento da sua conquista. Mudar de comportamento significa escalar a montanha, descer – e escalar, novamente, por todos os dias pelo resto da sua existência consciente.

Por exemplo, se você começará a ter uma alimentação saudável – um comportamento – você não pode fazer isso apenas uma vez. Você tem que fazer todo dia, durante todo dia, pelo resto dos seus dias. Isso é equivalente para ser mais paciente, tornar-se um melhor ouvinte ou evitar fumar cigarros.

Eu prefiro mudanças comportamentais como essas ao invés de escalar montanhas, pois parece ser tão difícil quanto, especialmente no começo. Apenas com a repetição, o comportamento torna-se inevitável. Eventualmente, irá se tornar mais fácil seguir um padrão do que quebrá-lo. Mas isso leva tempo e uma incrível persistência. Eu gosto de dizer que a mudança comportamental é simplesmente a coisa mais difícil de um ser humano consciente realizar.

De uma maneira didática, procure pensar sobre uma mudança que você gostaria de fazer. Agora, pense quanto tempo você está tentando fazer essa mudança. Eu vou tentar adivinhar algumas coisas: primeiro, essa mudança representa algo importante para você (se não, por que se importar em mudar?), e em segundo lugar, você está tentando fazer isso há muito tempo – que você provavelmente mediria esse tempo em meses ou anos ao invés de dias ou semanas.

Nesse ponto, você poderá sentir-se aflito ou com remorso, pensando sobre aquele talento que você nunca explorou, aquele peso que você nunca perdeu, ou aquela criança dentro de você que nunca foi encorajada. A questão é essa: os nossos comportamentos importam. Talvez eles importam mais do que as nossas conquistas. Nós não vivemos com os nossos aumentos de salários e diplomas de universidade todos os dias, mas nós vivemos com nossas escolhas para sermos pessoas melhores.

As questões diárias são muito difíceis, porque se nós respondermos elas honestamente, somos forçados a ser lembrados dessas escolhas. Porque ao escrevermos as nossas próprias questões, não podemos culpar alguma circunstância externa por impor metas que realmente não importam para nós. Uma vez que somos os únicos responsáveis por responder adequadamente, nós não podemos dizer que não sabemos o que deveria ser feito. E pelo fato de nós termos que fazer o que as questões nos pedem, não podemos dizer que o questionário é impossível de ser respondido. Mesmo nas circunstâncias mais precárias, há sempre espaço para o esforço.

Quando você falha nesse tipo de teste, não existem desculpas.

Nos meus anos de respostas às questões diárias, eu ainda não consegui realizar o “dia perfeito”. Já cheguei perto, porém usualmente eu falho de alguma forma.

Então porque eu me colocaria em um exercício tão difícil dia após dia? Primeiro, eu acredito que vale muito a pena me aproximar dos meus objetivos, mesmo que eu não consiga sempre conquistá-los. Mesmo os menores desafios (higiene bucal) adiciona algo importante (como uma vida saudável). Em segundo lugar, perguntar-se as mesmas questões todos os dias reforça a questão: se eu falhar muitos dias em sequência, ou eu irei parar de responder ou eu irei finalmente fazer algo decisivo para arrumar o problema.

Eu tenho orgulho de reportar um dos meus maiores sucessos. Quando a minha filha Kelly tinha 11 anos e o meu filho Brian tinha 9 anos, eu perguntei a eles como eu poderia ser um melhor pai.

Kelly teve essa humilde resposta: “Papai, você viaja bastante. Mas não é isso que me incomoda. O que me incomoda é como você age quando chega em casa. Você conversa no telefone; assiste esportes na televisão. Você não passa muito tempo comigo. Uma vez no Sábado, eu queria ir em uma festa na casa de uma amiga. A mamãe não me deixou ir na festa. Eu tive que ficar em casa e passar tempo com você. E aí você não me deu nenhuma atenção.”

Isso doeu. Então eu decidi marcar quantos dias eu passava pelo menos quatro horas com os meus filhos. Aqui está uma pequena lista que procura resumir o meu progresso:

  • 1991: 92 dias
  • 1992: 110 dias
  • 1993: 131 dias
  • 1994: 135 dias

Para essa feliz história, uma feliz mudança: Eu recebi mais dinheiro no ano em que passei 135 dias com os meus filhos do que no ano em que passei 20 dias com eles. Mas a prova real do meu sucesso foi em 1995, quando os meus filhos eram adolescentes e estavam começando a ficar um pouco cansados de mim. Eles disseram que era perfeitamente compreensível se eu não desse tanta atenção para eles. O meu filho sugeriu que eu procurasse passar o equivalente a 50 dias ao ano.

Passar tempo com a minha família requereu um grande esforço da minha parte. E continua assim. Como parte das minhas questões diárias, eu me pergunto se eu fiz o melhor como marido, pai e avô.

Nesse ponto, você pode estar compondo uma lista mental das suas próprias questões. Excelente! Eu espero que você adote este método para a sua vida cotidiana, e que isso melhore a sua saúde e felicidade assim como ocorreu para mim.  Eu encorajo você a criar as questões de acordo com as suas próprias prioridades, independente quais sejam. Eu ofereço apenas algumas sugestões que possam lhe ajudar a aproveitar completamente esse método.

Sempre que possível, é interessante fazer com que as suas questões sejam ativas e não passivas, como mostrado pela pesquisa conduzida pela minha filha, Kelly (agora ela é Dr. Kelly Goldsmith, com um doutorado em Yale sobre marketing comportamental e docente na Escola de Administração de Northwestern’s Kellog).

A pesquisa despertou uma discussão sobre o engajamento profissional dos indivíduos, um termo utilizado no contexto administrativo para descrever um estado de envolvimento ativo no trabalho.

A principal conclusão da Kelly é essa: se as organizações querem que os colaboradores estejam engajados, elas deveriam evitar a realização de pesquisas típicas que perguntam sobre como os seus superiores podem fazer para melhorar. Essas pesquisas não são ruins. Elas fornecem muitas sugestões valiosas. Porém, elas procuram executar um diagnóstico e não uma cura. Elas não fazem nada para engajar os colaboradores

Apenas os colaboradores sozinhos podem fazer isso – e uma boa maneira de lembra-los, é fazer perguntas ativas sobre as suas vidas profissionais. Por exemplo, ao invés de se fazer uma pergunta passiva: “Você foi feliz hoje? ” (algo que produz uma lista de reclamações), Kelly sugere que se faça uma pergunta ativa: “Você fez o seu melhor para ser feliz hoje?” A responsabilidade foi passada para o colaborador. Eles precisam refletir e tomar responsabilidade pelas suas próprias ações.

Essa lógica sustentou o meu processo de perguntas diárias. Senti que as minhas questões pessoais eram estáticas e sem inspiração, eu reavaliei muitas delas com a intenção de refletir em cima da formulação de Kelly. Por exemplo, eu alterei algumas das minhas perguntas. Abaixo é possível ver algumas delas:

  • De “Eu estabeleci metas claras?” para “Eu fiz o meu melhor para estabelecer metas claras?”
  • De “Quanto feliz eu estava?” para “Eu fiz o meu melhor para ser feliz?”
  • De “Eu evitei provar que eu estava correto quando não valia a pena?” para “Eu fiz o meu melhor para evitar provar que eu estava correto quando não valia a pena?

De repente, eu não estava sendo requisitado sobre a minha performance, mas sim sobre o quanto eu tinha me esforçado. A distinção é significante, uma vez que na minha versão original, se eu não estivesse feliz, eu sempre poderia responsabilizar outra circunstância. Eu poderia falar para mim mesmo que eu não era feliz porque a companhia aérea me atrasou o meu voo durante três horas (ela é responsável pela minha felicidade). Ou reclamar porque um cliente me levou ao seu restaurante favorito onde a comida era abundante, calórica e irresistível (o cliente – ou foi o restaurante? – é responsável pelo controle do MEU apetite).

Adicionar as palavras “eu fiz o meu melhor …” injetou o elemento de posse pessoal e responsabilidade no meu processo de questões diárias. Depois de algumas semanas, essas palavras criaram um nível diferente no meu engajamento relacionado as minhas metas.

Para ver se eu realmente estava obtendo sucesso, eu tive que medir em uma escala relativa, comparando o esforço dos dias mais recentes em relação aos dias anteriores. Eu escolhi me avaliar em uma escala de 0 – 10, sendo que 10 era a melhor pontuação. Caso eu tivesse uma pontuação baixa em “Eu fiz o meu melhor para ser feliz?”, eu teria apenas eu mesmo para culpar. Às vezes não conseguimos atingir as nossas metas, mas não existe nenhuma desculpa em não tentar. Todo mundo pode tentar.

No momento, eu tenho 29 questões diárias. Este não é o número correto. É uma escolha pessoal, em função de quantos temas você queira trabalhar. Alguns dos meus clientes possuem apenas três ou quatro questões. A minha lista possuí 29 questões, porque eu necessito de muita ajuda, mas também porque eu tenho feito isso por muito tempo, e tive anos para lidar com amplas questões interpessoais que aparentam ser alvos óbvios para pessoas que estão apenas começando.

As primeiras 13 questões perguntam se eu fiz o meu melhor para mudar algum comportamento específico ou desafio interpessoal. Por exemplo, eu me pergunto se eu fiz o meu melhor para evitar a raiva e comentários destrutivos, e se eu fiz o meu melhor para encontrar sentido no meu trabalho. As 16 questões remanescentes abordam temas profissionais e de disciplina pessoal, como quantas horas eu dormi a noite, quantos minutos eu estou me dedicando a escrever e se eu estou atualizado nos meus exames físicos. Eu desvio da fórmula criada pela Kelly, uma vez que não faz muito sentido perguntar se eu fiz o meu melhor nessas coisas. Ao invés disso, eu me avalio através da disposição de tempo ou simplesmente “sim” ou “não”.

Se você não tem certeza sobre como começar, eu recomendei as questões que eu utilizo em uma pesquisa online (aliás, caso você queira participar, sinta-se à vontade de enviar-me um e-mail em marshall@marshallgoldsmith.com). Essas questões englobam os tópicos básicos do engajamento profissional, mas também funcionam em outras áreas como:

  1. Eu fiz o meu melhor para estabelecer claramente as minhas metas diárias?
  2. Eu fiz o meu melhor para progredir em relação as minhas metas diárias?
  3. Eu fiz o meu melhor para encontrar algum sentido hoje?
  4. Eu fiz o meu melhor para ser feliz hoje?
  5. Eu fiz o meu melhor para construir relacionamentos positivos hoje?
  6. Eu fiz o meu melhor para estar compromissado com os meus objetivos hoje?

Se você fizer o teste online, lhe daremos um retorno após 10 dias perguntando essencialmente, “Como você está? Você notou algum progresso?”. Até agora, nós conduzimos 79 estudos com 2.537 participantes. Os resultados estão sendo incrivelmente positivos.

  • 37% dos participantes afirmar possuir progresso em todas as seis áreas.
  • 65% melhoraram em pelos menos quatro itens.
  • 89% melhoraram em pelo menos um item.
  • 11% não obteve alteração em nenhum dos itens.
  • 0,4% piorou em pelo menos um item (Imagine!)

Quando se considera a relutância das pessoas em relação à mudança, esse estudo demonstra que o auto-questionamento ativo pode possibilitar um novo caminho de interação com o mundo. Questionamentos ativos revelam aonde nós estamos nos esforçando e onde nós estamos desistindo. Ao fazer isso, aperfeiçoamos o nosso senso de percepção de áreas que necessitam de mudanças. Nós ganhamos um senso de controle e responsabilidade ao invés do sentimento de vitimização.

Eu falo isso sabendo de que é difícil não se fazer de vítima pelas circunstâncias, de vez em quando. Há tantas coisas na vida que nós não conseguimos controlar, e os desafios são realmente complexos – os desafios são relativos e de acordo com as circunstâncias e contexto em que o indivíduo se encontra. Talvez você ache que o seu trabalho seja estressante, ou você se encontra em uma discussão tóxica com uma pessoa próxima. Talvez você se considere acima do peso e se preocupa com a sua saúde. Talvez você esteja com problemas financeiros. Talvez você se sinta sozinho.

O trabalho diário da mudança comportamental, o qual pode fazer muito para redirecionar a sua vida para melhor, aparenta demandar muito esforço e dedicação. As pessoas que nós sabemos que podemos ser, as pessoas que nós uma vez sonhamos em se tornar, podem se demonstrar ainda mais distantes à medida que nos perdemos em nossas rotinas diárias. Ao nos sentimos frustrados, e paulatinamente amargos em relação a nós mesmos e nossas expectativas. Uma vez que a chance de se fazer a mudança passa, essa amargura se solidifica em arrependimento.

Pense nas questões diárias como um antidoto pragmático para aquelas emoções mais sombrias. Escreva as suas metas em um papel, ou em uma planilha de Excel – o que funcionar para você. Mensure-os todos os dias, “Eu fiz o meu melhor para …?”. Os seus problemas não irão desaparecer, mas você estabelecerá uma relação diferente com eles. Você é agora o agente da sua própria mudança.

Você irá falhar muitas vezes. Eu falho. Contudo se você se dedicar e persistir nos seus objetivos, eventualmente, você obterá êxito. O seu esforço disciplinado e concentração em relação aos seus problemas irão afetar positivamente a sua vida. Quando você olhar para trás na sua vida, através do vantajoso ponto de vista da experiência, você será capaz de dizer que, acima de tudo, você tentou o seu melhor possível nas questões que mais importavam para você. Você fez o seu melhor. Sem arrependimentos.

Marshall Goldsmith_photoDr. Marshall Goldsmith foi reconhecido como Coach Executivo nº 1 no ranking mundial pela GlobalGurus.org, estando dentre os pensadores mais influentes do mundo segundo classificação feita pela Thinkers50, que em 2015 o reconheceu como nº 1 Pensador em Liderança. Dentre seus 35 livros estão os best-sellers da revista Business Week, The Leader of the Future (O Líder do Futuro) e Global Leadership: The Next Generation (Liderança Global: A Próxima Geração), sendo seu último lançamento Triggers (2015). Dr. Marshall é uma autoridade mundial na ajuda de líderes de sucesso, na conquista de mudanças positivas de comportamento tanto em si mesmos quanto de seus funcionários e suas equipes.

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